Entrevista com usuários é um método qualitativo de UX Research usado para compreender experiências, necessidades, percepções, motivações, dificuldades e comportamentos relatados pelas pessoas. Em UX, o formato mais comum é a entrevista semiestruturada: existe um roteiro com temas e perguntas principais, mas o pesquisador pode aprofundar respostas e adaptar a conversa conforme novas evidências aparecem.
Uma boa entrevista não começa pela lista de perguntas. Ela começa pela decisão que a pesquisa precisa apoiar. Depois vêm as perguntas de pesquisa, o recrutamento, o roteiro, o piloto, a condução, o registro das evidências, a análise e a comunicação dos findings.
Conversar com usuários parece simples. Pesquisar por meio de uma conversa é diferente.
Quando uma entrevista é conduzida sem um objetivo claro, qualquer comentário interessante pode parecer um insight. Quando as perguntas sugerem respostas, o pesquisador encontra exatamente aquilo que esperava encontrar. E quando uma fala é transformada diretamente em funcionalidade, desaparece a diferença entre evidência, interpretação e decisão de design.
Por isso, entrevista com usuários deve ser tratada como um método de pesquisa, e não apenas como uma conversa informal com clientes.
Se você ainda está escolhendo qual técnica usar, consulte primeiro o guia de métodos de pesquisa UX. Este conteúdo aprofunda especificamente entrevistas.
O que é entrevista com usuários em UX?
Entrevista com usuários é um método em que uma pessoa pesquisadora conversa com participantes relevantes para compreender determinado tema, escuta suas respostas e utiliza perguntas de acompanhamento para aprofundar experiências, necessidades, contextos e percepções.
O Nielsen Norman Group descreve user interviews como uma técnica utilizada para aprender quem são os usuários, quais experiências tiveram e o que precisam, valorizam e desejam. Fora do vocabulário específico de UX, abordagens semelhantes podem aparecer como entrevistas em profundidade ou entrevistas semiestruturadas.
Consulte a referência original do Nielsen Norman Group sobre User Interviews.
O ponto central é que a entrevista produz principalmente evidência sobre aquilo que as pessoas conseguem relatar. Ela é muito útil para compreender contexto e significado, mas não deve ser confundida com observação direta do comportamento.
O que uma entrevista com usuários consegue descobrir?
Entrevistas são particularmente úteis quando precisamos compreender a experiência de uma pessoa a partir do ponto de vista dela.
| Pergunta de pesquisa | Tipo de evidência que a entrevista pode produzir |
|---|---|
| Que problema essa pessoa tenta resolver? | Relatos sobre situações, objetivos e necessidades anteriores |
| Como ela resolve isso atualmente? | Processos, ferramentas, alternativas e improvisos descritos |
| Onde surgem dificuldades? | Episódios concretos de frustração, atraso, erro ou abandono |
| O que influencia uma decisão? | Critérios, prioridades, restrições e preocupações relatadas |
| Como determinado processo é compreendido? | Termos utilizados, expectativas e modelos mentais |
| Como uma experiência anterior foi percebida? | Momentos positivos, negativos e significativos |
| Que diferenças existem entre públicos? | Padrões distintos de contexto, necessidade, conhecimento ou experiência |
O GOV.UK Service Manual recomenda entrevistas em profundidade para conhecer melhor os usuários, suas circunstâncias e aspectos relevantes de suas vidas ou trabalho, além de aprofundar problemas já identificados em outras pesquisas.
O que entrevistas não conseguem provar sozinhas?
Uma das distinções mais importantes em UX Research é separar o que as pessoas dizem daquilo que conseguimos observar diretamente.
Entrevistas produzem principalmente evidência atitudinal e autorrelatada. A pessoa conta o que lembra que fez, como interpretou uma experiência, o que acredita ou o que imagina que faria.
Esse tipo de dado tem valor, mas possui limitações naturais. Memórias podem perder detalhes, acontecimentos podem ser reorganizados retrospectivamente e intenções declaradas para o futuro nem sempre se transformam em comportamento real.
| A entrevista pode ajudar a compreender… | Mas não demonstra sozinha… |
|---|---|
| Como a pessoa descreve uma dificuldade | Onde exatamente ela falharia em uma interface |
| Por que acredita ter tomado uma decisão | Todos os fatores que realmente influenciaram o comportamento |
| Como costuma realizar determinada tarefa | O comportamento exato em uma situação real |
| Se afirma que utilizaria uma funcionalidade | Que realmente a utilizará quando estiver disponível |
| Como percebe uma experiência | A eficiência ou eficácia objetiva do fluxo |
Se a sua pergunta for “as pessoas conseguem usar esta solução para realizar uma tarefa?”, a evidência mais adequada provavelmente virá de um teste de usabilidade.
Pergunte sobre experiências concretas, não apenas opiniões
Uma maneira de reduzir parte das limitações do autorrelato é pedir que a pessoa reconstrua acontecimentos específicos e relativamente recentes.
| Evite | Prefira |
|---|---|
| “Como você normalmente compra uma passagem?” | “Conte sobre a última vez que você comprou uma passagem.” |
| “Você costuma comparar preços?” | “Na sua última compra, como decidiu qual opção escolher?” |
| “Você considera esse processo difícil?” | “Teve algum momento dessa experiência em que encontrou dificuldade?” |
| “Você usaria uma funcionalidade como essa?” | “Quando foi a última vez que você precisou resolver esse problema?” |
O Nielsen Norman Group recomenda utilizar eventos específicos para facilitar a recuperação de detalhes e evitar depender apenas de generalizações sobre comportamento.
Entrevista com usuários ou teste de usabilidade?
Os dois métodos podem aparecer na mesma pesquisa, mas respondem perguntas diferentes.
| Entrevista com usuários | Teste de usabilidade |
|---|---|
| Investiga experiências, percepções, necessidades e comportamentos relatados | Observa diretamente a interação com um produto ou protótipo |
| Evidência principalmente atitudinal | Evidência principalmente comportamental |
| Não exige necessariamente uma interface | Exige algo com que o participante possa interagir |
| Perguntas e follow-ups orientam a sessão | Tarefas e comportamento orientam a sessão |
| É muito útil em pesquisa generativa e discovery | É muito útil para identificar problemas de usabilidade |
É possível combinar os métodos. Uma sessão pode começar com uma entrevista curta sobre o contexto do participante e depois passar para tarefas de usabilidade.
Existe, porém, um cuidado metodológico: perguntas feitas antes do teste não devem chamar atenção para elementos específicos que serão avaliados depois, porque isso pode alterar o comportamento do participante.
Quando usar entrevistas com usuários?
Entrevistas aparecem com frequência em discovery e pesquisa generativa, mas não pertencem exclusivamente ao início do desenvolvimento de um produto.
| Contexto | Como a entrevista pode ajudar |
|---|---|
| Discovery | Compreender necessidades, problemas, contexto e processos existentes |
| Definição de produto | Aprofundar públicos, restrições e critérios de decisão |
| Produto em produção | Investigar problemas identificados em analytics, suporte ou surveys |
| Antes de testes | Compreender contexto relevante do participante |
| Depois de testes | Aprofundar acontecimentos específicos observados durante a interação |
| Pesquisa contínua | Acompanhar mudanças de contexto, necessidades e expectativas |
Em processos de Product Discovery, entrevistas costumam ser combinadas a outras evidências. Em equipes que pesquisam continuamente, também podem fazer parte de ciclos de Continuous Discovery.
Entrevista estruturada, semiestruturada ou não estruturada?
Entrevistas podem variar pelo nível de estrutura definido antes da sessão.
| Formato | Característica | Quando considerar |
|---|---|---|
| Estruturada | Perguntas e ordem bastante padronizadas | Quando comparabilidade e consistência entre sessões são prioritárias |
| Semiestruturada | Existe um roteiro, mas follow-ups e ordem podem se adaptar | É particularmente útil em UX Research qualitativo |
| Não estruturada | Pouca estrutura predefinida e exploração bastante aberta | Quando ainda existe pouco conhecimento sobre o território investigado |
Na prática de UX, a entrevista semiestruturada costuma oferecer um equilíbrio útil: garante que os temas necessários sejam abordados sem impedir que o pesquisador explore acontecimentos inesperados.
Como fazer uma entrevista com usuários passo a passo
O erro mais comum é começar abrindo um documento e escrevendo perguntas. O processo deveria começar antes.
1. Defina a decisão que a pesquisa precisa apoiar
Pergunte primeiro:
O que pretendemos fazer diferente depois de aprender isso?
“Conhecer nossos usuários” ainda não é um objetivo suficientemente específico.
Uma pesquisa pode, por exemplo, precisar compreender por que pequenos lojistas interrompem determinado processo, como profissionais acompanham uma atividade atualmente, quais situações levam clientes a procurar atendimento humano ou quais critérios influenciam a escolha entre soluções concorrentes.
Se ninguém consegue explicar como os resultados poderão influenciar uma decisão, o estudo provavelmente ainda precisa ser refinado.
2. Transforme suposições em perguntas de pesquisa
Não confunda pergunta de pesquisa com a frase que será dita ao participante.
| Suposição do time | Pergunta de pesquisa |
|---|---|
| “Usuários abandonam porque o cadastro é trabalhoso.” | Que fatores influenciam a interrupção do cadastro? |
| “Clientes querem receber relatórios pelo WhatsApp.” | Como clientes recebem, consultam e compartilham informações atualmente? |
| “As pessoas não entendem essa funcionalidade.” | Como as pessoas compreendem e resolvem essa necessidade hoje? |
A pergunta de pesquisa orienta a investigação. O participante recebe perguntas mais naturais sobre sua própria experiência.
3. Defina quem precisa participar
Evite definir participantes apenas como “usuários do produto”. O critério precisa representar as experiências relevantes para a pergunta.
Dependendo do estudo, pode ser mais importante considerar experiência recente com determinado problema, frequência de uma tarefa, papel profissional, conhecimento sobre o domínio, estágio da jornada, dispositivo utilizado ou necessidades de acessibilidade.
Por exemplo, se você quer compreender como empresas compram um software corporativo, talvez o critério mais importante não seja idade. Pode ser a participação real da pessoa no processo de avaliação e contratação de ferramentas.
O GOV.UK recomenda recrutar usuários atuais ou prováveis e considerar pessoas com diferentes necessidades de acesso, níveis de confiança digital e deficiências. Consulte o guia sobre recrutamento de participantes para user research.
4. Planeje a amostra pelo objetivo, não por um número mágico
Não existe uma quantidade universal de entrevistas capaz de garantir que um estudo qualitativo esteja “completo”.
A necessidade depende da diversidade do público, quantidade de segmentos, complexidade do tema, qualidade das entrevistas e estabilidade dos padrões encontrados.
Em pesquisas qualitativas iterativas, costuma ser mais útil trabalhar em rodadas e avaliar o que ainda precisa ser aprendido do que buscar um número aparentemente preciso antes de entender o problema.
Se existem públicos com experiências substancialmente diferentes, planeje cobertura para esses segmentos. Uma média geral pode esconder necessidades específicas.
5. Crie um discussion guide
Um roteiro de entrevista — frequentemente chamado de discussion guide — ajuda as sessões a cobrirem temas importantes sem transformar a pesquisa em um questionário rígido.
| Parte | Objetivo |
|---|---|
| Introdução | Explicar a pesquisa, duração, registros e uso das informações |
| Aquecimento | Conhecer o contexto e facilitar o início da conversa |
| Experiência atual | Entender como determinada situação acontece hoje |
| Episódios concretos | Aprofundar acontecimentos recentes e específicos |
| Dificuldades e alternativas | Explorar problemas, improvisos e soluções existentes |
| Follow-ups | Aprofundar respostas relacionadas às perguntas de pesquisa |
| Encerramento | Verificar se existe algo importante ainda não discutido |
O roteiro é um mapa. Se uma resposta revelar algo importante para a pesquisa, acompanhe essa linha antes de voltar ao próximo tópico.
6. Escreva perguntas abertas e neutras
Uma pergunta adequada cria espaço para que a experiência do participante apareça. Uma pergunta indutiva já contém parte da interpretação do pesquisador.
| Evite | Problema | Prefira |
|---|---|---|
| “Você achou o processo confuso?” | Sugere uma interpretação | “Como foi realizar esse processo?” |
| “Você prefere fazer isso pelo aplicativo, certo?” | Induz uma alternativa | “Como você costuma fazer isso?” |
| “Você usaria um recurso que resolvesse isso?” | É hipotética e fácil de responder positivamente | “Como você resolveu isso da última vez?” |
| “Por que você não fez X?” | Pode soar acusatória | “O que aconteceu naquele momento?” |
| “Você gostou?” | Produz avaliação superficial | “O que mais chamou sua atenção nessa experiência?” |
Uma revisão metodológica sobre entrevistas semiestruturadas recomenda perguntas abertas, neutras, claras e escritas em linguagem familiar para o participante. Veja DeJonckheere e Vaughn, Semistructured interviewing in primary care research: a balance of relationship and rigour.
7. Explore a última vez em que algo aconteceu
Uma das formas mais úteis de melhorar uma entrevista é sair das generalizações e entrar em situações reais.
Algumas perguntas possíveis:
- “Conte sobre a última vez que isso aconteceu.”
- “O que aconteceu primeiro?”
- “O que você fez depois?”
- “Quem estava envolvido?”
- “Que alternativas você considerou?”
- “O que foi mais difícil naquele momento?”
- “Como você resolveu?”
- “Isso já tinha acontecido antes?”
8. Prepare perguntas de aprofundamento
A primeira resposta raramente contém tudo o que vale compreender.
Follow-ups simples podem aprofundar a conversa sem sugerir uma resposta:
- “Pode me contar mais sobre isso?”
- “O que você quer dizer quando fala…?”
- “O que aconteceu depois?”
- “Por que isso foi importante?”
- “Como você se sentiu naquele momento?”
- “Você consegue lembrar de um exemplo?”
- “O que tornou essa situação diferente?”
Parte da habilidade de entrevistar está justamente em escutar bem o suficiente para perceber onde vale aprofundar.
9. Faça um piloto
Execute uma entrevista antes da rodada principal e observe se as perguntas realmente produzem as informações necessárias.
O piloto pode revelar perguntas difíceis de entender, sequência pouco natural, excesso de duração, termos internos, assuntos repetitivos ou temas importantes que ficaram de fora.
O GOV.UK Service Manual também recomenda testar previamente o discussion guide.
Como conduzir uma entrevista com usuários
Explique a sessão antes de começar
Apresente brevemente o objetivo da pesquisa, a duração, como a conversa será registrada e como as informações serão utilizadas.
Se houver gravação, explique isso antes de iniciá-la. Também deixe claro que não existem respostas certas e que o objetivo é compreender a experiência da pessoa.
Comece com perguntas simples
Antes de chegar a acontecimentos complexos ou sensíveis, comece entendendo o contexto geral do participante.
Isso ajuda a estabelecer o ritmo da conversa e fornece contexto para interpretar respostas posteriores.
Fale menos e escute mais
Silêncio não precisa ser preenchido imediatamente.
Uma pausa pode ser o momento em que a pessoa está tentando lembrar um acontecimento ou organizar uma resposta. Interromper cedo demais transfere o controle da conversa para o pesquisador.
O GOV.UK orienta pesquisadores a escutar atentamente, evitar excesso de fala e aprofundar quando alguma informação ainda não estiver clara.
Não defenda o produto
Se alguém critica uma decisão em que você trabalhou, evite explicar imediatamente por que ela existe.
Responder “fizemos assim porque…” muda a relação. O participante pode começar a moderar suas respostas para não contrariar a equipe.
É mais útil perguntar:
“O que fez você interpretar dessa forma?”
Entrevista presencial ou remota?
Ambos os formatos podem produzir boas entrevistas. A escolha depende da pergunta de pesquisa, do público e do contexto que precisa ser observado.
| Presencial | Remota |
|---|---|
| Facilita observar o ambiente físico | Amplia o alcance geográfico |
| Pode favorecer pesquisa no contexto real de trabalho | Reduz deslocamentos e logística |
| Permite utilizar materiais físicos | Facilita compartilhar telas e artefatos digitais |
| Exige local e deslocamento | Depende de conexão, dispositivo e software |
Em muitos estudos, ferramentas comuns de videoconferência já são suficientes. Plataformas especializadas podem acrescentar gravação, observação e organização da pesquisa. Veja, por exemplo, o guia do Lookback.
Como registrar entrevistas sem perder rastreabilidade
Notas, gravações, transcrições e marcações podem ajudar na análise, mas o mais importante é conseguir voltar da conclusão para a evidência que a sustenta.
Separe aquilo que o participante efetivamente disse da interpretação feita posteriormente pela equipe.
| Camada | Exemplo |
|---|---|
| Evidência | “Quando acontece isso eu geralmente mando uma mensagem para meu gerente.” |
| Contexto | P04 descrevendo como resolve divergências de cobrança |
| Interpretação | O contato humano parece funcionar como mecanismo de segurança nesse momento |
| Nova pergunta | O que leva clientes a procurar atendimento humano em vez do autosserviço? |
Essa separação reduz o risco de uma interpretação de pesquisa ser apresentada posteriormente como se fosse uma fala literal do participante.
Como analisar entrevistas com usuários
A coleta não termina quando a chamada acaba. Horas de gravação e dezenas de citações ainda são dados brutos.
O trabalho de análise é transformar essas evidências em padrões e findings que respondam às perguntas da pesquisa e ajudem a equipe a tomar decisões melhores.
Comece pelas evidências
Revise notas, gravações ou transcrições e extraia acontecimentos e falas relevantes para as perguntas de pesquisa.
Mantenha uma referência ao participante ou à sessão de origem. Isso permite verificar posteriormente se determinada interpretação realmente está sustentada pelos dados.
Agrupe evidências relacionadas
Procure relações entre observações: necessidades semelhantes, dificuldades recorrentes, contextos equivalentes, alternativas utilizadas, critérios de decisão ou diferenças importantes entre segmentos.
Evite criar primeiro as categorias que deseja encontrar e depois encaixar as falas nelas. Uma boa análise também precisa permitir que padrões inesperados apareçam.
Transforme padrões em findings
| Camada | Exemplo |
|---|---|
| Evidências | P02, P04 e P06 relatam conferir valores manualmente antes de enviar uma cobrança |
| Padrão | Existe uma etapa recorrente de conferência manual |
| Finding | Profissionais não confiam que os dados estejam prontos para envio sem uma verificação adicional |
| Implicação | Reduzir o trabalho manual pode exigir primeiro aumentar confiança e transparência dos dados |
| Próxima pergunta | Que informações são verificadas antes de a pessoa considerar o resultado confiável? |
Perceba que a solução ainda não apareceu. “Adicionar uma tela de confirmação” seria uma decisão de design possível, não o finding produzido pela pesquisa.
O GOV.UK recomenda registrar primeiro aquilo que foi visto ou ouvido, organizar observações em grupos, formular findings e só então discutir possíveis ações.
Preserve evidências divergentes
Pesquisa qualitativa não deve ser reduzida a uma votação de citações.
Um caso diferente pode revelar outro segmento, contexto ou necessidade ainda pouco representado. Em vez de descartá-lo porque “só uma pessoa falou”, investigue o motivo da diferença.
Conecte findings às perguntas e decisões
Para cada finding importante, registre qual pergunta de pesquisa ele ajuda a responder, quais evidências o sustentam, em quais participantes ou segmentos apareceu, qual impacto pode ter e qual decisão ou nova pesquisa deveria acontecer em seguida.
Ferramentas como Dovetail podem ajudar a organizar transcrições, tags e evidências, mas não substituem o raciocínio metodológico necessário para produzir findings.
Entrevistas, personas e mapas de empatia
Entrevistas podem fornecer matéria-prima para personas, jornadas e mapas de empatia, mas isso não significa que cada frase dita por um participante deva virar uma característica do artefato.
A sequência mais segura é:
evidências → padrões → interpretação → artefato.
O caminho inverso é perigoso:
persona imaginada → perguntas utilizadas para confirmar o que a equipe já acreditava.
Veja também como criar personas em UX e o guia de mapa de empatia.
Privacidade, gravação e proteção de dados
Entrevistas podem envolver nome, contato, voz, imagem, informações profissionais, hábitos, opiniões e outros dados pessoais. O tratamento dessas informações deve ser planejado antes do recrutamento.
Explique de forma clara ao participante a finalidade da pesquisa, o que acontecerá durante a sessão, quais informações serão registradas, quem poderá acessá-las e por quanto tempo elas serão necessárias.
Se houver gravação de áudio, vídeo ou tela, deixe isso explícito antes do início da coleta.
No Brasil, o tratamento de dados pessoais é regulado pela Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais — LGPD. Consentimento é uma das bases legais previstas na lei, mas não deve ser tratado como a única hipótese possível para qualquer pesquisa. Consulte também as orientações oficiais da ANPD.
Erros comuns em entrevistas com usuários
| Erro | Por que prejudica a pesquisa | Como melhorar |
|---|---|---|
| Começar pelas perguntas em vez do objetivo | Produz informações interessantes, mas pouco conectadas à decisão | Defina primeiro decisão e perguntas de pesquisa |
| Perguntar “o que você quer que a gente crie?” | Transfere a responsabilidade de design para o participante | Explore problema, contexto e experiência |
| Fazer perguntas indutivas | Aumenta a chance de confirmar a hipótese inicial | Use linguagem aberta e neutra |
| Perguntar somente sobre o futuro | Intenções declaradas podem não refletir comportamento posterior | Explore acontecimentos concretos do passado |
| Seguir o roteiro palavra por palavra | Impede aprofundar descobertas inesperadas | Use o roteiro como guia |
| Interromper rapidamente | Reduz detalhes e reflexão do participante | Permita pausas |
| Defender o produto | Pode fazer o participante moderar o que diz | Escute e aprofunde sem justificar a solução |
| Confundir relato com comportamento observado | Produz conclusões mais fortes que a evidência | Combine métodos quando necessário |
| Transformar uma citação em insight automaticamente | Uma frase isolada pode não representar um padrão | Analise contexto, recorrência e divergências |
| Perder a origem das evidências | Torna findings difíceis de verificar posteriormente | Mantenha rastreabilidade entre sessão, evidência e conclusão |
Modelo de roteiro para entrevista com usuários
O roteiro abaixo funciona como ponto de partida. Adapte-o à sua pergunta de pesquisa, público e contexto.
Introdução
- Apresente pesquisador e objetivo geral da sessão.
- Explique duração e formato.
- Explique gravação e uso dos dados, quando aplicável.
- Reforce que não existem respostas certas.
- Permita que o participante tire dúvidas antes de começar.
Contexto
- “Pode me contar um pouco sobre o seu contexto relacionado a este assunto?”
- “Com que frequência você precisa fazer isso?”
- “Que ferramentas, pessoas ou serviços fazem parte desse processo hoje?”
Experiência concreta
- “Conte sobre a última vez que você precisou fazer isso.”
- “O que aconteceu primeiro?”
- “O que você fez depois?”
- “Houve algum momento difícil?”
- “Como você resolveu?”
- “Que alternativas considerou?”
Aprofundamento
- “Pode me explicar melhor essa parte?”
- “Por que isso foi importante?”
- “Isso acontece com frequência?”
- “Você lembra de outro exemplo?”
Encerramento
- “Existe alguma coisa importante sobre esse assunto que eu não perguntei?”
- “Tem algo que você gostaria de acrescentar?”
- Explique brevemente os próximos passos da pesquisa.
- Agradeça a participação.
Checklist antes de entrevistar usuários
- A decisão que a pesquisa precisa apoiar está clara?
- As perguntas de pesquisa estão documentadas?
- Entrevista é realmente o método adequado para essas perguntas?
- Os critérios de recrutamento representam os públicos necessários?
- O roteiro está organizado por temas?
- As perguntas são abertas e neutras?
- Existem perguntas sobre experiências concretas?
- Foram preparados follow-ups para aprofundar respostas?
- O roteiro foi pilotado?
- Duração e logística estão definidas?
- Necessidades de acessibilidade foram consideradas?
- Privacidade e tratamento de dados foram planejados?
- Gravação e finalidade foram explicadas?
- Existe uma forma consistente de registrar evidências?
- O processo de análise está definido?
- A equipe sabe como os findings poderão influenciar decisões?
Uma boa entrevista produz evidência, não uma lista de funcionalidades
O valor de uma entrevista não está em perguntar ao usuário o que deveria ser construído.
Está em compreender suficientemente bem sua experiência para que a equipe consiga tomar decisões melhores.
Isso exige manter separadas algumas camadas:
o que a pessoa relatou → o contexto em que aconteceu → os padrões entre participantes → a interpretação da equipe → o que ainda permanece incerto → a decisão que será tomada.
Quanto maior a rastreabilidade entre essas etapas, menor a chance de uma frase isolada virar uma “verdade sobre o usuário”.
Depois da entrevista, o próximo método depende da nova pergunta. Você pode precisar observar comportamento em um teste de usabilidade, investigar organização de conteúdo com card sorting, analisar métricas ou realizar uma nova rodada de pesquisa.
Para comparar essas possibilidades, volte ao guia de métodos de pesquisa UX.
Se sua empresa precisa estruturar uma pesquisa, compreender melhor seus usuários ou transformar evidências em decisões de produto, conheça também a consultoria de UX da CamaraUX.
Perguntas frequentes sobre entrevistas com usuários
O que é entrevista com usuários em UX?
É um método qualitativo de UX Research em que uma pessoa pesquisadora conversa com participantes relevantes para compreender experiências, necessidades, percepções, motivações e comportamentos relatados.
Como fazer uma entrevista com usuários?
Defina primeiro a decisão e as perguntas de pesquisa, recrute participantes adequados, crie um roteiro semiestruturado com perguntas abertas e neutras, faça um piloto, conduza a conversa com escuta ativa e perguntas de aprofundamento e depois organize e analise as evidências.
Que perguntas fazer em uma entrevista com usuários?
Prefira perguntas abertas sobre experiências concretas, como ‘conte sobre a última vez que isso aconteceu’, seguidas de perguntas de aprofundamento como ‘o que aconteceu depois?’, ‘como você resolveu?’ e ‘pode me contar mais sobre isso?’.
Quantas entrevistas com usuários devo fazer?
Não existe um número universal. A quantidade depende da diversidade do público, quantidade de segmentos, complexidade do tema e estabilidade dos padrões encontrados. Em pesquisa qualitativa, rodadas iterativas costumam ser mais úteis do que tratar um número fixo como regra.
Qual é a diferença entre entrevista e teste de usabilidade?
Entrevistas investigam principalmente experiências, percepções e comportamentos relatados. Testes de usabilidade observam diretamente participantes tentando realizar tarefas com um produto ou protótipo. Os métodos podem ser combinados, mas produzem evidências diferentes.
Entrevistas com usuários podem ser remotas?
Sim. Entrevistas podem ser presenciais, por telefone ou videoconferência. A escolha depende da pergunta de pesquisa, contexto, participantes, acessibilidade, privacidade e necessidade de observar o ambiente.
Posso gravar entrevistas com usuários?
Gravações podem ajudar na análise, mas devem ser planejadas com cuidado. Explique previamente o que será registrado, para qual finalidade, quem terá acesso e como os dados serão tratados de acordo com as obrigações aplicáveis ao contexto da pesquisa.
Referências e fontes
- Nielsen Norman Group. User Interviews 101.
- GOV.UK Service Manual. Using in-depth interviews.
- GOV.UK Service Manual. Finding participants for user research.
- GOV.UK Service Manual. Analyse a research session.
- GOV.UK Service Manual. Taking notes and recording user research sessions.
- DeJonckheere, M.; Vaughn, L. M. Semistructured interviewing in primary care research: a balance of relationship and rigour. Family Medicine and Community Health, 2019.
- Brasil. Lei nº 13.709/2018 — Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais.
- Autoridade Nacional de Proteção de Dados. Perguntas Frequentes — ANPD.


